O São João deste ano não vai contar com a maestria da sanfona de
Arlindo dos Oito Baixos. É a primeira vez, em mais de 50 anos de
carreira, que ele não vai participar dos festejos juninos. O músico de
71 anos está com a saúde debilitada, internado desde o dia 12 de março
no Insituto Materno Infantil de Pernambuco - Imip. Hipertenso e
diabético há mais de 40 anos, doença que já o deixou cego, Arlindos dos
Oito Baixos foi internado por conta de uma unha encravada, que
infeccionou. Por conta da diabetes, a infecção foi tão grave que os
médicos tiveram que amputar parte da perna esquerda de Arlindo, abaixo
do joelho.
Seguindo recomendação dos médicos, Arlindo está sem
receber visitas, para evitar o risco de novas infecções. Apesar do
estado delicado, a sensação é de que o pior já passou. “Estou melhor. A
perna ainda está cicatrizando, mas estou me sentindo bem. O médico diz
que devo ter alta até o próximo sábado”, diz o sanfoneiro, por telefone.
“Quero sair daqui logo. Tudo em hospital é ruim. Para dormir é ruim,
para comer é ruim. Agora tem esse isolamento, ninguém pode me visitar”,
diz Arlindo, que recebe no hospital apenas os familiares e já sabe o que
fazer quando voltar para casa. “Tô com uma saudade danada do fole!”,
conta. “Mas não vou conseguir tocar logo, vou ter que esperar uns dias”,
completa.
Arlindos dos Oito Baixos está sendo acompanhado no
Imip pela esposa, dona Odete, e pela filha Érica, além de dois dos seus
três filhos homens, Raminho da Zabumba e Adilson. Com a saída do
hospital, os custos para a família devem aumentar bastante. “Arlindo
vive do trabalho dele, se ele está sem tocar, ele não tem dinheiro.
Nesses últimos meses, está vivendo do pouco que tinha guardado”, diz o
produtor Roberto Andrade, que cuida da carreira do músico há 13 anos.
“Por enquanto, está tudo bem, mas não sabemos como vai ser depois”,
reforça Érica Macedo, filha de Arlindo.
A cadeira de rodas que o
músico vai usar quando deixar o hospital foi doada por um deputado. “Os
shows de junho foram cancelados e o único cachê que Arlindo tem para
receber é R$700 de uma apresentação que seria feita na abertura das
comemorações dos cem anos da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Ele
já estava internado na data do show, mas a Alepe disse que ia pagar o
cachê mesmo assim, para ajudá-lo. Esse dinheiro já está reservado para
pagar uma cuidadora quando ele voltar para casa”, conta Roberto.
“Arlindo precisa de ajuda”, diz o produtor, que bateu na porta da
Fundarpe essa semana para pedir ajuda, e ainda aguarda uma resposta.
De
renda fixa, Arlindo só conta com o dinheiro dos direitos autorais de
suas músicas, que chega trimestralmente, em cheques que raramente passam
dos R$200. Para conseguir dinheiro para Arlindo se manter até ter
condições de voltar a a trabalhar - além de tocar, ele é um exímio
afinador de sanfonas e também dá aulas - está sendo organizado para o
dia nove de junho um grande arraial no Forró de Arlindo, que funciona na
casa do músico no bairro de Dois Unidos.
“Conseguimos um pequeno apoio da Prefeitura do Recife, que se
comprometeu a pagar os músicos da banda base. Vamos chamar os amigos de
Arlindo para cantar”, adianta Roberto. A última festa no Forró de
Arlindo foi no dia quatro de março, quando Dominguinhos pediu para ir
cantar lá, para ajudar o amigo. Naquele dia, uma semana antes de se
internar, o sanfoneiro se sentiu mal e não tocou. A torcida agora é para
que Arlindo esteja bem para participar da sua próxima festa.
Saiba mais//Nascido em Sirinhaém, Arlindo
morou até a adolescência no Engenho Trapiche. Saiu da cana-de-açucar
para cortar cabelos no Cabo de Santo Agostinho. Foi lá que começou a
tocar sanfona em bailes, instrumento que aprendeu vendo o pai tocar os
Oito Baixos.
Desde 2007, o produtor Roberto Andrade tentou por
três vezes incluir, sem sucesso, Arlindo dos Oito Baixos na lista dos
Patrimônios Vivos da Fundarpe, que concede uma verba vitalícia de R$750
para pessoas físicas. Apenas três títulos são concedidos por ano.
Foi
em um show no Parque de Exposição do Cordeiro que Arlindo conheceu Luiz
Gonzaga. Passou 22 anos tocando com o Rei do Baião. “Ele que me fez
voltar aos oito baixos. Disse que já tinha sanfoneiro demais, mas
ninguém tocava oito baixos. Gravei e na hora de assinar os créditos ele
pediu para trocar Arlindo do Acordeom por Arlindo dos Oito Baixos”,
lembrou, em entrevista ao Diario no ano passado.
Estão nos planos
do produtor de Arlindo o lançamento ainda neste ano de uma coletânea ao
vivo, em CD e DVD, para marcar os 50 anos de carreira do sanfoneiro,
completados no ano passado.
Por Carolina Santos, do Diario de Pernambuco